EntrevistaOrganizaçãoSustentabilidade

Organização Sustentável

Hoje eu trouxe uma entrevista de um tema bastante relevante para mim: Organização Sustentável. E hoje tenho orgulho de ser referência no Brasil sobre esse assunto.

Essa entrevista foi concedida à Associação Nacional de Profissionais de Organização e Produtividade, ANPOP, Associação que faço parte desde 2016. E o objetivo da entrevista foi esclarecer o que é Sustentabilidade e como o trabalho em Organização pode promover isso.

OBS: Após essa entrevista, fui convidada para falar um pouco mais sobre o tema no Programa Mora Sergipe (TV Atalaia/ Record/SE). O vídeo da entrevista está logo acima.

ENTREVISTA

Essa é uma daquelas palavras repetidas como um mantra, que todo mundo já ouviu falar, mas cujo conceito nem sempre é compreendido.

Inclusive, costumamos relacionar sustentabilidade ao meio ambiente, em especial no controle da poluição. Não que a relação inexista, mas a abrangência do termo é muito maior.

Considerando esse contexto, qual a relação entre organização de ambientes com a sustentabilidade?

O termo sustentabilidade, de fato, é um termo muito abrangente e muitas vezes só visualizado no viés ambiental.

Na década de 80 e 90 estávamos acostumados com o termo “Ecológico” que se popularizou e não conseguiu atingir o objetivo de mostrar o meio ambiente em suas várias dimensões.

E com o surgimento do conceito de “Sustentabilidade” temos essa chance de mostrar que o meio ambiente possui várias dimensões, como: a ambiental, a social, a econômica, a política e a cultural.

Também temos a chance de mostrar que só conseguiremos sustentar a qualidade de vida nesse planeta se houver uma mudança de comportamento, para que as próximas gerações consigam usufruir dos recursos disponíveis.

E para que ocorra essa mudança de comportamento é necessária uma educação, tanto de fora para dentro, quanto de dentro para fora.

De fora para dentro temos escolas, cursos, workshops, palestras, ou seja, uma educação formal e não-formal. De dentro para fora temos a nossa casa, os nossos hábitos.

E a organização entra nesse ponto. De proporcionar às pessoas uma mudança de hábito, para que elas consigam fazer com que suas casas se tornem mais funcionais e gerem menos consumo, menos desperdício e garantam mais qualidade de vida.

Esses são os princípios da natureza e vimos isso de forma clara em outras sociedades, como nas de abelhas e formigas, consideradas as sociedades mais bem-sucedidas do planeta.

Qual a importância de termos essa preocupação ao organizar um ambiente residencial ou corporativo?

A maior importância que vejo é em relação à eficiência. Vivemos hoje numa sociedade de extremos, de um lado excesso de informação e de coisas e do outro lado escassez de tempo e de dinheiro.

A nossa casa é o reflexo de nossa vida, e se pararmos para analisar, vivemos num círculo vicioso que nos faz viver cada vez mais essa dualidade excesso/escassez, sem ter um equilíbrio.

Trabalhamos mais para ganhar mais dinheiro porque o excesso de informação nos diz para comprar mais, e com isso ficamos com escassez de tempo para nós e nossa família. Compramos mais e ficamos com escassez de dinheiro e com excesso de coisas que muitas vezes atrapalha nossa relação interpessoal.

E a organização tem o objetivo de trazer esse ponto de equilíbrio. Trazer à tona nossos hábitos, nosso consumo, nosso estilo de vida.

Ao conseguirmos organizar os pertences, a rotina e as metas, refletimos nossos hábitos e temos a oportunidade de fazer a ruptura desse círculo vicioso.

O objetivo da organização sustentável é incentivar o consumo consciente, com propósito e a eficiência dos processos, seja ele no ambiente residencial, ou no ambiente corporativo.

Quais as práticas e hábitos que precisamos mudar para tornar um ambiente organizado e sustentável?

Acredito que o fundamental é olhar para o ambiente como um todo e analisar todos os pertences.

Podemos utilizar a metodologia de Marie Kondo, que é deixar no ambiente somente aquilo que traz felicidade e que realmente vai ter uma utilidade. É o que nós Personal Organizers chamamos de Detox, de Destralhar.

Depois é organizar de forma que tudo fique visível. A visibilidade nos faz quebrar o princípio de Pareto 80/20, que utilizando o princípio, podemos aferir que usamos 20% do que temos porque os outros 80% estão fora do nosso campo de visão.

E ao aumentarmos esse índice de visualização, temos uma grande chance de diminuir o consumo, que a meu ver, é um dos principais problemas ambientais.

Vejo isso com muitos dos meus clientes que relataram a diminuição do impulso por comprar após visualizarem melhor seus pertences depois de uma organização.

Como adequar as rotinas domesticas ao conceito e a cultura de uma organização sustentável?

Com a esquematização e visualização das rotinas e atividades, sejam elas cotidianas ou programadas.

Temos a tendência de sempre confiar ao cérebro todas as atividades, processos e metas. E isso não é eficiente porque o nosso cérebro evoluiu para poupar energia e ser unifocal.

E ao organizarmos nossa mente e termos o hábito de anotar e esquematizar todos os processos, podemos ser mais eficientes, ter menos estresse mental, melhorar nossa comunicação com outras pessoas e evitar o desperdício.

Um exemplo:

Ao organizarmos todas as atividades de limpeza da casa, colocando os produtos e quantidade a serem usados num quadro e deixarmos visíveis para todos os moradores, evitamos o estresse que é direcionar todo o dia um funcionário para as suas atividades, ou reclamar do seu serviço por pensar que ele “já sabe”.

Quantas pessoas reclamam que o funcionário desperdiça muito produto de limpeza? Mas será que esse desperdício não é porque ele não sabe a quantidade a ser utilizada?

Vejo muitos casos desses nos meus treinamentos domésticos. Funcionários usando o produto puro ao invés de diluído por falta de informação.

O serviço doméstico infelizmente ainda é um trabalho marginalizado e feito por pessoas que tiveram pouca ou nenhuma instrução. E o desperdício sabemos que não é uma prática boa para uma casa sustentável.

Ela infringe a dimensão ambiental (maior consumo de produtos de limpeza, maior poluição e maior desperdício), a dimensão econômica (maior gasto com produtos de limpeza, maior gasto no tratamento de efluentes domésticos) e a dimensão social (maior estresse com a funcionária e com os moradores da casa).

Existe algum processo ou metodologia que possa ser usado de convencimento e mudança de hábito nesta abordagem com o cliente? Quais as dicas que você pode nos dar?

Infelizmente uma metodologia pronta desconheço. Mas acredito no poder do conhecimento e da divulgação de práticas sustentáveis.

É o que trabalho incansavelmente desde que comecei a estudar sobre meio ambiente em 2004. E que desde 2015 como Personal Organizer venho realizando.

E é um grande desafio mudar uma sociedade centrada no consumo. Ainda se tem a percepção de que “Ecologia” e “Sustentabilidade” são somente para pessoas ligadas à natureza.

Uma imagem cultivada a fim de sustentar a sociedade de consumo e implantar a obsolescência planejada (processo em que as mercadorias e “modas” são feitas para durar por pouco tempo e serem descartadas).

E como forma de tentar sair um pouco desse universo em que vivemos e conhecer outras culturas que conseguem ser bem-sucedidas de forma sustentável que venho estudando o estilo de vida de países escandinavos.

Eles possuem estilo de vidas que nomeiam como Hygge (Dinamarca), Lagom (Suécia), Koselig (Noruega) e Sisu (Finlândia) Em 2018 visitei a Dinamarca e Suécia. E neste ano de 2019 visitarei a Noruega e Finlândia.

E o que estes países têm de diferentes? A centralização no bem estar social. E como conseguem isso? Com organização, maximizando a eficiência e minimizando os desperdícios.

Se olharmos para a história desses países, vemos que depois da 2ª Guerra eles eram países pobres. E com conhecimento, coletividade e organização conseguiram estar em poucas décadas entre os países mais sustentáveis e com maior qualidade de vida do planeta.

E a lição que tiro disso é que temos um trabalho muito grande à frente no nosso país.

O nosso cliente precisa perceber que a sustentabilidade não é uma questão de “moda” ou de “ambientalista”, mas um estilo de vida que promove bem-estar, economia e desenvolvimento.

Como fazer isso quando nos deparamos com uma família que não pratica a sustentabilidade?

Impor um estilo de vida mais sustentável é complicado. Nem todas as famílias estão preparadas para internalizar isso.

Uma imagem que se criou é que sustentabilidade é sinônimo de mais trabalho e mais gasto financeiro. O que é uma mentira.

Toda mudança gera um trabalho inicial, e isso é normal. Nosso cérebro gasta mais energia numa atividade que ainda não se transformou em hábito.

Após se tornar hábito, o esforço energético é menor e a atividade entra no piloto automático. E é nessa fase de transição do loop do hábito que as pessoas se apegam e julgam.

E a organização pode ajudar nesse processo, deixando que essa transição para o hábito se torne mais fácil.

A sustentabilidade doméstica, termo criado por mim e que faz referência às dimensões da sustentabilidade, pode ser implantada numa casa sem que a cliente tenha procurado por isso.

Qualquer organização está contribuindo para a sustentabilidade, e ao ver os benefícios vindos com a organização, o cliente estará disposto a subir mais um degrau e implantar outras ações específicas para uma casa mais sustentável.

Nos fale um pouco sobre o trabalho que você desenvolve neste mercado e como pode ajudar profissionais que queriam se especializar neste assunto.

O meu trabalho veio muito da vivência que tive na área ambiental, com a graduação em Ciências Biológicas, o mestrado em Desenvolvimento Sustentável e o meu trabalho em órgãos públicos ambientais e na graduação ministrando a disciplina de Gestão Ambiental e Responsabilidade Social.

E ao perceber que a Sustentabilidade para ser vivida e entendida teria que estar nos hábitos cotidianos e no íntimo das pessoas, que comecei a trabalhar com organização, deslumbrando uma grande oportunidade. E hoje sei que fiz a escolha certa.

Meu trabalho hoje como profissional de organização consiste na produção de conteúdo relevante através das minhas redes sociais, meu Blog e meu livro Manual da Casa Sustentável. E sempre tento aliar o viés sustentável com suas dimensões ao meu conteúdo.

Na organização trabalho como toda Profissional de Organização. Ainda não se tem no mercado um cliente específico que procura organização sustentável.

No meu caso existem clientes que fiz organização e que depois me procuraram para implantar rotinas e treinamentos domésticos com esse viés mais sustentável. Até para organização de coleta seletiva em casas já fui chamada por alguns clientes.

Como disse na pergunta anterior, após ver os benefícios que uma casa organizada pode trazer para si e para o meio ambiente, o cliente entende mais o conceito e fica mais aberto para outras ações.

É uma abordagem nova e com o tempo tenho certeza de que esse tipo de cliente com o entendimento real do que é sustentabilidade vai ser mais comum.

Infelizmente ainda não existe um curso específico para Personal Organizer que trata desse viés ambiental. A maioria das pessoas que trabalha o tema ambiental na organização faz por ter estudado sobre meio ambiente ou porque tem afinidade com o tema.

E acredito ser muito importante uma formação mais específica sobre esse assunto para ser ter uma real dimensão do que é sustentabilidade e evitar o senso comum.

No meu artigo de conclusão de curso do MBA em Gestão Empresarial e Empreendedorismo eu trato sobre a percepção dos profissionais de organização em relação à importância da sustentabilidade no seu modelo de negócio.

E quando foi perguntado aos profissionais se já receberam alguma informação sobre sustentabilidade relacionada à atividade de organização, 43% disseram que tiveram alguma informação, mesmo não sendo formal, 20% não tiveram nenhuma informação e 32% gostariam de se informar.

Então se percebe o interesse desse profissional em melhorar o seu conhecimento e sua prática sobre o assunto. E me coloco à disposição da Anpop para realizarmos algum curso de especialização sobre o tema sustentabilidade.

Na entrevista eu cito o meu livro “Manual da Casa Sustentável: dicas para deixar sua casa amiga do meio ambiente”.

Você pode saber mais sobre o livro e como adquiri-lo no LINK abaixo:

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O que achou da entrevista? Te deu uma nova perspectiva sobre Sustentabilidade? E sobre Organização? Conseguiu compreender que podemos ajudar o meio ambiente tendo uma casa organizada? Conte para mim!

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